Parece que finalmente Williane me ensinou como escrever crônicas.
Mas recentemente tenho reclamado muito da minha ausência de inspiração, principalmente com as crônicas. “Ausência de inspiração”; como se isso fosse algo quase que divino que ocasionalmente te atravessa fazendo brotar toda sorte de sentimentos (positivos ou não) que são transcritos em arte. Mas não é exatamente assim que funciona. A inspiração tem vários nomes, assume várias formas. Sabe, hoje meu tio me acompanhou ao médico. Ficamos sentados lá por horas, eu, ele, e minha mãe, que tentava de um jeito ou de outro denunciar as pessoas que furavam a fila de espera, enquanto atendia telefonemas do trabalho se desculpando pela demora. Troquei poucas palavras com os dois, e na verdade só me dei conta de que meu tio estava lá quando tirei por um instante os olhos do livro que carregava comigo. Pedi a benção; falei do clima, saúde, e fiz alguns outros comentários corteses, como se existisse algum tipo de código de conduta social a ser seguido entre integrantes da mesma família. Mesmo que íntimos. Não estava num dia lá muito bom e com certeza não tinha esperanças de tempos melhores. Saímos os três do consultório e no caminho pra casa, meu tio desviou a rota pra deixar minha mãe no trabalho. Como fazer o retorno demoraria um bocado e é bem mais cômodo dirigir em linha reta, ele resolveu cuidar dos seus afazeres primeiro antes de me deixar em casa, já que eu estava com tempo livre.
Não saímos muito sabe, eu e meu tio; mas costumávamos sair bastante quando era mais jovem. Apesar de não pertencer ao mesmo ciclo social dos lugares que me levava, já que eu era muito pequeno e não havia outras crianças da minha idade nos postos, bares e churrascos. Vai ver isso até contribuiu pra minha des-infância. Lembro de uma vez que ele tinha me levado pra lavar o carro num lava rápido já muito desgastado que ficava na Boa Vista. E, bem, não me recordo dos detalhes, mas eu propus ficar dentro do velho Monza enquanto ele era lavado, por que lá não havia cadeiras e eu com certeza ficaria entediado (muito embora andasse aborrecido a maior parte do tempo) por ficar o tempo inteiro de pé, sem conversar com ninguém. Meu tio ficou bastante ofendido por que eu não quis interagir nem com ele, nem muito menos com as pessoas do lava rápido e nunca mais me levou de volta ao lugar.
Hoje, dez ou doze anos depois, fomos ao mesmo lava rápido na Boa Vista, que continuava com a mesma atmosfera desanimadora e ainda sem nenhuma maldita cadeira. Meu tio dirigiu até lá em silêncio. Nós sempre viajamos assim, desde que eu era muito pequeno, completamente calados. Mas por alguma razão que desconheço esse nunca foi um silêncio sufocante. Por mais que eu já houvesse percebido (sempre percebi) que esta não era a rota de casa, e até então não saber pra onde estávamos indo, eu nunca abri a boca pra perguntar nada. Não sei se quando era criança tinha isso como sinal de respeito, ou de profunda confiança, já que estava com meu amado tio. Perguntar o roteiro, saber o que vamos fazer depois; e se vamos chegar logo, nunca importou muito pra mim. Minha curiosidade tinha limites quando se tratava de desvendar os mistérios de uma vez. Eu sempre gostei mais de criar hipóteses, inventar histórias e imaginar que estaríamos viajando pro Panamá, ou sei lá, Ilhas Cayman. Sempre fui apaixonado por mistérios.
Chegamos ao lava rápido lá pelas nove horas e só voltamos depois do meio-dia. É um lugar bem simples, nos fundos de um pequeno ferro velho. Dá de frente pra pista, de modo a facilitar a entrada dos carros na estriba e acelerar o carregamento dos baldes pelas ladeiras de cimento batido. Os cinco rapazes que trabalham lá não descansam à vista do dono, Zé, que age como outro funcionário qualquer; enxaguando, batendo, polindo e estacionado. Zé é o tipo de homem que não deve ter chegado a completar o ensino médio; estatura mediana, barbudo, já meio corcunda, com a pele vermelha do sol, daqueles que te passam a história da vida inteira pelo arquear das sobrancelhas. A minha antiga impressão de que aquele lugar seria tão agradável quanto uma rubéola estava mais clara do que nunca. Mas acontece que a inspiração assume várias formas.
Acontece também que meu tio não tirava o sorriso da cara. Apesar de cheio de deveres e de gerenciar uma atribulada loja; meu tio é um homem simples, de hábitos simples, que gosta de encarar a vida o mais bucolicamente possível. Ele só sorri quando se sente verdadeiramente feliz, o tipo de sorriso bobo que toda criança faz quando ganha doce. Ele adorava aquela atmosfera pútefra, que fedia suor e óleo de motor. Contava umas histórias tão elaboradas que ninguém se importava em perguntar se eram ou não verdade, olhava os carros como se fossem mulheres nuas, analisando os detalhes e passando a mão pelas curvas como se pudesse sentir o calor da pele ouriçada. Cuspia pros lados pelo menos cinco vezes num intervalo de dois minutos, para provar masculinidade, ou como se aquilo fosse um gesto de respeito ao desenrolar da história. De vez em quando parava e olhava pro céu sem nenhuma nuvem com os braços cruzados nas costas. Falava de motos, de acidentes, do preço da gasolina, da relação com as mulheres em casa e até do MERCOSUL.
Foi aí que Zé se debruçou sobre um pedaço de camurça que esfregava com força e preocupação. Havia sangue no tapete no chevet. – Acidente na pista; disse Zé, como se fôssemos da polícia. A dona do chevet socorreu uma vítima de batida de moto e temendo pela integridade (sua e do chevet), incumbiu Zé de tirar as manchas de sangue do carro; serviço que o próprio Zé teria recusado não fosse a dona do chevet uma conhecida de muitos anos.
- Isso não sái agora nem com carbureto.
Resmungava Zé enquanto o vermelho do sangue reluzia e exalava um cheiro doce.
- Sái, é só lavar com um produto químico.
Disse o meu tio, que naquela hora poderia até recitar Camões se fosse esse o tópico da conversa. Tem horas que o conhecimento e a ignorância traçam uma linha tão tênue quanto a do amor e do ódio.
- Pode até sair, mas vai ficar o cheiro de podre. A gente somo os bicho mais podre que tem, até o sangue da pessoa é desse jeito.
Acenei com a cabeça mesmo sem participar efetivamente da conversa. Zé lia Schopenhauer e não sabia. Falava sem levantar o olhar pra ninguém, como se vomitasse algo que está ali cravado no peito. A fúria nas palavras ácidas, assim como sua aparência rústica, contrastava com a doçura da alma e a simplicidade da sua postura. Seu tom era claro e emanava benelovência; se impunha com a maestria de um advogado que tem a certeza do veredicto.
Me senti ridiculamente maravilhado por aquela cena. Parei um instante e olhei em volta. Os homens trabalhavam, conversavam, os carros passavam na pista, uma música brega passava no rádio; o vento passava, a vida passava; e era tão mais interessante estar ali do que enfiado no meu quarto vendo meia dúzia de séries estúpidas e filmes alemães de dramas decadentes que representaram um ou dois movimentos nos anos 70, e que pouco ou nada importam pra nossa geração, mas que mesmo assim são considerados todos Cult e re-indicados para que mais meia dúzia de pessoas os assistam, não entendam nem o começo, nem o miolo e insultem o final, a fotografia e o streaming.
Toda a estupidez da minha falta de inspiração bateu na minha cara com uma flanela suja fazendo respingar óleo de motor no chão.
Zé continuou falando da decadência da humanidade e outras teorias filosóficas de correntes diversas e juro que ele citou Heidegger umas seis vezes. A partir daquele momento percebi que pouco importava até onde Zé tinha estudado, porque ele era infinitamente mais sábio do que eu um dia chegaria a ser. Zé nunca precisou se sentir inspirado pra fazer alguma coisa, ele faz o que sabe. Não conhece muitas coisas, mas domina o pouco que conhece. Não sofreu por excesso de reflexão, nem muito menos por amores não correspondidos; se algo o incomoda ele desiste disso, e não persiste no erro. Não se julga feio, nem sujo, nem marginalizado. Zé é Zé, esposo de Cristina, pai de Marcos e de Mateus. Só isso. Simples, prazeroso e desvinculado da idiocracia. Zé representa um paradigma metódico que eu achava que entendia e cumpria a risca, mas que na verdade não conhecia nem dez por cento da totalidade.
Se eu tiver um filho um dia quero que ele passe pelo menos três horas letivas na escola-oficina do Zé, para aprender sobre os mais distintos aspectos da vida e tomar uma boa dose diária de humildade.
Parece que finalmente Williane me ensinou como escrever crônicas.



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